quarta-feira, 26 de março de 2008

AS POTENCIALIDADES DA INTERNET NA PRÁTICA EDUCATIVA


AS POTENCIALIDADES DA INTERNET NA PRÁTICA EDUCATIVA
Cristiana Serra[1]


Resumo: As mudanças nas formas de comunicação e de intercâmbio de conhecimentos, desencadeadas pelo uso generalizado das tecnologias digitais nos distintos âmbitos do mundo contemporâneo, demandam uma reformulação das práticas pedagógicas. O artigo examina as possibilidades que a Internet oferece para a criação de novos padrões de aquisição e construção do conhecimento, ao permitir o uso integrado e interativo de diversas mídias, a exploração hipertextual de um volume enorme de informações, a simulação e a comunicação à distância. As interações via rede abrem novos canais de expressão e interlocução, ampliando, consideravelmente, o espectro de idéias e o número de pessoas com que temos contato. O desenvolvimento de processos de aprendizagem cooperativa sobressai como uma das estratégias mais promissoras de utilização desse novo ambiente eletrônico no campo educativo.

Palavras-chaves: tecnologias digitais; Internet; aprendizado cooperativo;



O ciberespaço abre novas possibilidades que requerem uma reformulação das relações de ensino e aprendizagem, tanto no que diz respeito ao que é feito nas escolas, quanto a como é feito. Precisamos então pensar no que realmente pode ser feito com a utilização da Internet no processo educativo. Para isso, é necessário compreender o que vem a ser esse ambiente eletrônico e seu potencial pedagógico.
As possíveis mudanças decorrentes da inclusão das recentes tecnologias de comunicação e informação na atividade educativa, normalmente, são avaliadas sob o ponto de vista de uma ruptura total, a partir da instauração de algo completamente novo, ou como uma simples continuidade das práticas vigentes. A primeira acepção parte do princípio de uma novidade radical, muitas vezes implícito na idéia de “novas tecnologias”. Marcos Palacios, André Lemos e Cláudio Cardoso relativizam:

“Dizemos que as novas tecnologias são interativas, hipertextuais, ou seja, que elas utilizam simulações, interatividade, não-linearidade (ou multilinearidade), multivocalidade e tempo real. Todas essas características são possíveis sem nenhuma mediação tecnológica e vivemos isso no nosso sistema educativo atual, com menor ou maior sucesso.” (CARDOSO, LEMOS, PALACIOS, 1999, p.69)

A noção de novo sempre é relativa, uma vez que comporta, estende e potencializa elementos da conjuntura anterior. No entanto, não se pode deixar de considerar o que a inovação apresenta de específico, caso contrário não seria inovação. Por mais que um professor possa explorar os conteúdos de forma multilinear em seu discurso, alternando diferentes visões sobre um mesmo assunto, dificilmente, ele atingirá um nível de complexificação semelhante ao que é permitido pela navegação hipertextual na Internet.
Num outro extremo, está a visão instrumental, que considera as novas tecnologias como uma simples evolução do quadro negro ou dos livros didáticos. Para aqueles que sustentam esta posição, a metodologia utilizada com os livros pode continuar sendo empregada hoje com o uso do computador. Muda-se a tecnologia, mas a maneira de ensinar permanece a mesma. Nelson Pretto ilustra essa situação, lembrando a conhecida história do médico e do professor que retornam do passado. “O primeiro vê tudo diferente e não consegue adaptar-se às salas cirúrgicas. O segundo continua a lição de onde havia parado há mais de um século” (PRETTO, 2000).
Há ainda os que defendem que a revisão dos paradigmas educacionais não depende necessariamente das atuais tecnologias de comunicação e informação. Até esse ponto, tal argumento é pertinente. É o que afirma Dora Incontri:

“O progresso tecnológico pode nos atiçar, nos empurrar, mas não promove por si só um salto qualitativo na história. E se falamos em revolução, reconheça-se em primeiro lugar que uma revolução é necessária na Educação, independente do fato ‘multimídia’ ou ‘informática’. Estes fatores tecnológicos podem instrumentalizar umas tantas mudanças, que seriam necessárias mesmo sem o seu advento. Mas este advento tornou-as de certa forma mais necessárias.” (INCONTRI, 1996, p.17)

É importante atentar para a ressalva que a autora faz ao concluir sua argumentação. O posicionamento de Guillermo Orozco Gómez, embora parta de uma premissa semelhante, encerra um pensamento completamente diferente:

“... temos que deixar de pensar nos meios, temos que pensar nas pessoas, nos sujeitos e isso mostra que o problema da vinculação da educação com a comunicação não é assunto de técnica, não é assunto dos meios, é assunto de um projeto educativo, de metodologia pedagógica, de filosofia educativa.” (OROZCO GÓMEZ, 1998, p.86)

Embora não deva estar centrado exclusivamente nos meios, o projeto educativo não pode ignorar as potencialidades da tecnologia e as implicações culturais do desenvolvimento tecnológico na sociedade de um modo geral. A seguinte afirmação de Marcos Palacios, apesar de ter sido feita em um outro contexto, serve de contraponto ao argumento de Guillermo Orozco Gómez:

“Concordo que a ‘submissão’ à tecnologia, nos termos em que a questão foi colocada, é um equívoco a ser evitado. No entanto, a afirmação inversa de que ‘a pedagogia nada tem a ver com o avanço tecnológico’ parece-me igualmente inaceitável, uma vez que faria dessa atividade a única forma de fazer humano não afetado pelo avanço tecnológico. Parece-me claro que a Pedagogia, enquanto prática e enquanto campo de reflexão, tem também sua história, seu desenvolvimento e ‘seus avanços’ (ainda que tal palavra tenha um certo sabor evolucionista que talvez seja melhor evitar...) e que UM dos elementos concorrentes para tal desenvolvimento é o ‘avanço’ tecnológico. Para ficar apenas num exemplo e num autor: será que a invenção da imprensa não teve repercussões sobre a Pedagogia? Marshall McLuhan (A Galaxia de Gutenberg, Ed. Cia Nacional, S.P., 1965) que o diga... E disse.” (PALACIOS, 2000)

Feitas essas considerações, vejamos as possibilidades que a Internet oferece para a criação de novos padrões de aquisição e construção dos conhecimentos, ao permitir o uso integrado e interativo de diversas mídias, a exploração hipertextual de um volume enorme de informações, a simulação e a comunicação à distância.
A interatividade é o próprio modo constitutivo da rede. Ou seja, a Internet exige uma participação ativa do usuário, do contrário nada acontece. Como explica VITTADINI (1995), com base na definição oficial francesa, “...a interatividade (...) é uma peculiaridade de alguns tipos de sistemas informáticos ‘que permitem ações recíprocas de modo dialógico com outros usuários ou em tempo real com as máquinas’”.[2]
Esta definição aponta duas formas de interação: uma interação homem-máquina, que ocorre, por exemplo, quando utilizamos um editor de texto ou qualquer outro software; e uma interação homem-homem, como é o caso dos bate-papos e listas de discussão via Internet. Ainda podemos considerar uma terceira possibilidade, que seria a interação máquina-máquina, a exemplo das ferramentas de busca automática.
LEMOS (1997) situa a noção de interatividade em três níveis: uma interatividade social, que marcaria de um modo geral nossa relação com o mundo e toda vida em sociedade; uma interatividade técnica do tipo "analógico-eletro-mecânica", que experimentamos ao dirigir um automóvel ou mesmo ao girar a maçaneta da porta; e outra do tipo "eletrônico-digital", que seria ao mesmo tempo técnica e social.
Segundo Don Tapscott, o campo da educação tem sido, em larga medida, orientado por um modelo de aprendizado, que ele denomina de “pedagogia da difusão”.

“A leitura, o livro escolar, a lição de casa e a escola são todos analogias para a mídia da difusão ¾ unidirecional, centralizada e com ênfase em estruturas predefinidas que melhor satisfarão ao público de massa.
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“Hoje, os métodos pedagógicos e até mesmo os programas educativos de computador baseiam-se nessa visão de aprendizado transmitido. O professor é basicamente um transmissor. [...] Os programas não são adaptados a cada aluno, mas desenvolvidos para atender às necessidades do grau ¾ um tamanho-serve-para-todos, como na difusão.” (TAPSCOTT, 1999, p.126)

No entanto, esse autor também chama a atenção para as exceções, lembrando, inclusive, do personagem interpretado por Sidney Poitier no filme “Ao mestre com carinho”.
“É claro que muitos professores se esforçaram para ser mais do que apenas transmissores de informação, avaliadores da assimilação e juízes de desempenho. [...] Quem não se lembra de pelo menos um professor que nos tenha inspirado a ser melhores; que nos motivou a pensar diferentemente; que nos permitiu processar e integrar informações de diversos campos; que nos ajudou a adquirir conhecimentos e valores?” (TAPSCOTT, 1999, p.126)

Na Internet, o acesso à informação pressupõe a navegação hipertextual por uma quantidade quase infinita de conteúdos, exigindo, portanto, a participação de um sujeito ativo que decide onde quer chegar, que precisa validar o tempo todo suas fontes, escolher o que vai utilizar, estabelecer uma ordem e determinar o nível de aprofundamento. O “excesso” de informações na rede não deve ser visto como algo nocivo. Pelo contrário, pode contribuir para estimular o pensamento criativo, como disse Victor Mirshawka Jr., em uma entrevista sobre a relação entre caos e criatividade:

“O aluno precisa ter acesso à informação e a muita informação, primeiro para poder descartar o que é irrelevante. Só se faz isso por comparação. Segundo, para enxergar conexões relevantes entre coisas díspares ou distantes e transformar a informação em conhecimento. A capacidade de fazer analogias é o que conduz as pessoas a conceber idéias interessantes e diferentes. A livre associação norteia as técnicas de pensamento criativo.” (MIRSHAWKA JUNIOR, 1999)

Em contraposição à “pedagogia da difusão”, podemos vislumbrar uma pedagogia da interação. Esta última estaria fundamentada tanto na interação entre os sujeitos do processo educativo (alunos-alunos, professores-professores, professores-alunos), fomentando dinâmicas de aprendizagem cooperativa, inclusive à distância; como na interação destes com os inúmeros recursos de informação disponíveis na Internet.
O diálogo estabelecido com o ambiente informacional se dá através de um novo tipo de leitura, batizada de navegação. Segundo COLOMBO (1995, p.240), o hipertexto funciona como uma espécie de parêntese suspensivo e momentâneo, um modo de proceder em paralelo, que quebraria o encadeamento linear e seqüencial do discurso. Ao percorrer os múltiplos caminhos possíveis no hipertexto digital ¾ seja on-line, no WWW, ou off-line, em CD-ROM ¾, o usuário vai saltando de um ponto a outro, sem interromper o fluxo comunicativo, e instituindo uma ordem lógica própria.
Quando lemos um texto impresso ou assistimos a um filme, também tecemos ligações entre suas diferentes partes, trechos ou cenas (intratextualidade) e estabelecemos relações com outros textos, imagens ou situações vividas (intertextualidade). Como diz LÉVY (1996, p.36), “...podemos desobedecer às instruções, tomar caminhos transversais, produzir dobras interditas, estabelecer redes secretas, clandestinas, fazer emergir outras geografias semânticas”. Nesse sentido, esse autor afirma que a navegação pelo hipertexto digital é uma espécie de virtualização da leitura.

“O hipertexto, hipermídia ou multimídia interativo levam adiante, portanto, um processo já antigo de artificialização da leitura. Se ler consiste em selecionar, em esquematizar, em construir uma rede de remissões internas ao texto, em associar a outros dados, em integrar as palavras e as imagens a uma memória pessoal em reconstrução permanente, então os dispositivos hipertextuais constituem de fato uma espécie de objetivação, de exteriorização, de virtualização dos processos de leitura.” (LÉVY, 1996, p.43)

Os conceitos de intratextualidade e intertextualidade podem ser aplicados, portanto, ao processo de leitura de qualquer texto. O grande diferencial do hipertexto informático é o fato de tornar explícita e imediata a vinculação entre diferentes níveis de informações, dentro do próprio texto ou com outros documentos, através dos links. Daí resulta um outro conceito: a multivocalidade.[3]

“... os links externos e internos permitem dar voz própria a uma nova informação (multivocalidade), colocando-a em pé de igualdade com a informação textual que a vinculou. [...] A intratextualidade e a intertextualidade são formas de ampliação do universo informacional, possibilitando, fora da hierarquia do ‘pé de página’, uma multivocalidade. Essa multivocalidade (forma de vincular discursos diversos e contraditórios) deve ser explorada em experiências de educação online, visto que ela é a forma de passar ao aluno versões complexas sobre um assunto, deixando ao mesmo a possibilidade de efetuar suas próprias sínteses.” (CARDOSO, LEMOS, PALACIOS, 1999, p.72)

Além de permitir vários níveis de aprofundamento de um mesmo assunto, a Internet possibilita o acesso a múltiplos pontos de vista e a diferentes referenciais culturais. A rede abriga expressões das mais diversas culturas, minorias étnicas, religiosas, sexuais e políticas. É nesse sentido que MCCLINTOCK (1997) preconiza o fim da competição, no âmbito da elaboração dos currículos, entre multiculturalistas e defensores do cânone:

“Nos últimos 500 anos, o currículo tem consistido em levantamentos condensados de assuntos escalados para encaixar dentro dos livros didáticos ora em uso. A seqüência do currículo não tem sido uma função do que é valioso na cultura, mas sim o que um limitado conjunto de livros pode abarcar. Conseqüentemente, a política curricular envolvia uma competição para excluir os materiais julgados perniciosos e para incluir aqueles considerados essenciais. Essa competição está no centro do conflito entre multiculturalistas e defensores do cânone. Essa competição está tornando-se rapidamente sem sentido e desnecessária.” [4]

O processo de digitalização, com a conversão de toda informação em códigos binários, tornou possível a reunião, combinação e hibridização dos diferentes meios, através da conjugação de textos, sons e imagens em um único suporte. Visto que a tendência de fundo é a interconexão e a integração, LÉVY (1999, p.65) questiona a pertinência do termo “multimídia”, já que este “...parece indicar uma variedade de suportes ou canais” e não “...a confluência de mídias separadas em direção à mesma rede digital”.
Mais importante do que operar a simples junção de diferentes modos de representação (música, escrita, fotografias, imagens em movimento, etc.), o ciberespaço tem como característica distintiva “...a vocação de colocar em sinergia e interfacear todos os dispositivos de criação de informação, de gravação, de comunicação e de simulação”. Dessa forma, tende a tornar-se o “...principal canal de comunicação e suporte de memória da humanidade”, como afirma LÉVY (1999, p.93).
Quais as conseqüências para a educação? A palavra escrita e o discurso verbal, provavelmente, perderão sua hegemonia em relação a outros modos de comunicação e conhecimento. Seria o fim do logocentrismo? A multimídia incentivaria os modos artísticos, metafóricos e intuitivos de expressão do pensamento? Pierre Lévy acredita que sim. Segundo esse autor, “...os ‘ícones’ informáticos, certos videogames, as simulações gráficas interativas utilizadas pelos cientistas representam os primeiros passos em direção a uma futura ideografia dinâmica” (LÉVY, 1996, p.50).

“... o pesquisador que faz proliferar os cenários, explorando modelos numéricos (digitais), e a criança que joga um videogame experimentam, ambos, a escritura do futuro, a linguagem de imagens interativas, a ideografia dinâmica que permitirá simular os mundos. Antes de condenar os videogames, os humanistas, os pedagogos, os criadores, os autores, deveriam valer-se desta nova escritura e produzir com ela obras dignas desse nome, inventar novas formas de saber e exploração que lhes correspondam, dar-lhes seus títulos de nobreza.” (LÉVY, 1998b)

Como afirma Lévy, em vez de censurarem o uso de videogames, os pais e educadores deveriam estar atentos às habilidades que estão sendo desenvolvidas pelas crianças, através do contato com esse tipo de brinquedo. Os jogos de simulação envolvem uma estratégia pessoal e estimulam a capacidade de solução de problemas frente a uma variedade de situações.
Técnicas de simulação, semelhantes às dos videogames, têm sido bastante empregadas em atividades de pesquisa científica, em treinamentos e no meio industrial, uma vez que não implicam riscos e custos elevados, além de permitirem a exploração rápida de um grande número de hipóteses. Em simuladores, pilotos de avião, por exemplo, podem testar como agiriam ao enfrentar uma tempestade ou se houvesse um defeito na turbina. Astronautas podem experimentar a sensação de falta de gravidade.
Simular é fazer “como se fosse real”. Cabe destacar que a simulação é algo que se aproxima da experiência real, mas não a substitui. Um piloto de avião, em um simulador de vôo, pode exercitar suas habilidades e a competência para solucionar problemas, mas não está submetido à mesma pressão psicológica decorrente da responsabilidade de estar realmente conduzindo uma aeronave.
LÉVY (1996, p.58) diz que “...o conhecimento é [...] o fruto de uma aprendizagem, ou seja, o resultado de uma virtualização da experiência imediata. Em sentido inverso, este conhecimento pode ser aplicado, ou melhor, ser atualizado em situações diferentes daquelas da aprendizagem inicial”. O mesmo vale para uma aprendizagem que não resulta da experiência direta. Ou seja, o conhecimento adquirido por simulação também pode ser atualizado em circunstâncias reais, daí sua importância como recurso pedagógico.
Outra vantagem dos recursos de simulação, na Internet ou em CD-ROM, é suprir as deficiências de escolas que não dispõem de laboratórios ou do instrumental necessário em sala de aula. Equipamentos utilizados nas pesquisas mais avançadas, como microscópios eletrônicos e telescópios, podem ser encontrados em vários sites na rede. Em “A Vida Digital”, NEGROPONTE (1995, p.189-190) dá o seguinte conselho para professores e alunos: “Não disseque: construa um sapo. [...] Uma vez que o computador pode hoje simular quase tudo, não se precisa mais dissecar um sapo para aprender sobre ele”. Os pesquisadores do Lawrence Berkeley National Laboratory parecem ter levado a sério a advertência de Nicholas Negroponte e produziram um programa[5], disponível na Internet, inclusive em português, que simula a dissecação de uma rã.
Os recursos de simulação têm aplicações nas diversas áreas de conhecimento e não apenas nas chamadas ciências naturais. Vejamos um exemplo de aplicação no ensino de história. Em “Thirty-Five Critical Days”[6], o usuário se coloca na posição dos principais líderes políticos, nos 35 dias que antecederam a Primeira Guerra Mundial. Com base em documentos enviados por diplomatas em Paris, Londres, São Petersburgo, Viena e Berlim, os representantes dos países envolvidos tomaram decisões que culminaram na eclosão do conflito. Nesta simulação, cada um faz suas próprias deliberações e pode compará-las às medidas que foram efetivamente tomadas na época. A partir das escolhas realizadas, o simulador sinaliza os possíveis rumos da História.
As simulações por computador não só podem ser utilizadas nas diversas disciplinas, como também favorecem sua integração. No SimCity[7], um jogo bastante popular entre os jovens, o usuário controla o crescimento e a manutenção de cidades. Nesta aplicação, uma série de noções são trabalhadas: planejamento urbano, relações sociais, controle ambiental, capacidade administrativa, entre outras. Esse tipo de jogo estimula o desenvolvimento de um raciocínio sistêmico ou ecológico e a percepção de dinâmicas complexas, já que a alteração de um dos fatores do sistema supõe a modificação ou reorganização de todo o conjunto.
De acordo com LÉVY (1999, p.166), as técnicas de simulação prolongam e transformam a experiência de pensamento, sendo, portanto, “...um modo especial de conhecimento, próprio da cibercultura nascente”. Ele afirma que “...a capacidade de variar com facilidade os parâmetros de um modelo e observar imediata e visualmente as conseqüências dessa variação constitui uma verdadeira ampliação da imaginação” (LÉVY, 1999, p.166).

Aprendizado cooperativo

A Internet não é apenas um meio de informação, mas um meio para a troca de informações, isto é, um ambiente comunicacional. Ao proporcionar a comunicação à distância e a constituição de um contexto comum entre indivíduos dispersos no espaço geográfico, a rede oferece possibilidades de criação coletiva distribuída e favorece processos de aprendizagem cooperativa.
A escola é um espaço gerador de socialização e a comunicação é imprescindível em toda a prática educativa. Segundo Mário Kaplún, pesquisador latino-americano pioneiro nos estudos que relacionam os campos da comunicação e da educação, a comunicação não deve ser considerada apenas como um mero instrumento midiático e tecnológico, mas, sobretudo, como um componente pedagógico.

“... é fundamental ultrapassar esta visão redutora e postular que a Comunicação Educativa abarca certamente o campo da mídia, mas não apenas esta área: abarca também, e em lugar privilegiado, o tipo de comunicação presente em todo processo educativo, seja ele realizado com ou sem o emprego de meios.” (KAPLÚN, 1999, p.68)

As interações em grupo são essenciais para o aprendizado. Esse aspecto é enfatizado pelas teorias sociocognitivas, que propõem uma pedagogia cooperativa e delegam aos fatores culturais e sociais um papel decisivo no processo de construção do conhecimento.
Com a massificação do ensino e a existência de um número muito grande de alunos por turma, há cada vez menos espaço para o diálogo e o intercâmbio de experiências no ambiente restrito da sala de aula. O que termina predominando, portanto, é o paradigma da “pedagogia da difusão”. KAPLÚN (1999, p.74) rejeita este modelo e postula que “...educar-se é envolver-se em um processo de múltiplos fluxos comunicativos. O sistema será tanto mais educativo quanto mais rica for a trama de interações comunicacionais que saiba abrir e por à disposição dos educandos”.
A utilização da Internet na educação pode ampliar, consideravelmente, “a trama de interações comunicacionais” de que fala Kaplún. A rede abre novos canais de interlocução, convertendo-se em uma extensão da comunicação face a face, em vez de substituí-la, como muitos costumam defender. Do mesmo modo, pode-se dizer que o uso da telemática constitui um prolongamento do ensino presencial ¾ e, nesse sentido, faz parte deste ¾ e não o seu melhor substituto, como tem sido apregoado por alguns programas de educação à distância.
A Internet deve ser utilizada, sobretudo, como um meio para que o estudante exercite a auto-expressão e produza conhecimento. Ou seja, um espaço em que ele pode desenvolver suas habilidades comunicativas, compartilhar e confrontar seu pensamento, visão de mundo e experiências, enriquecendo-se também com as contribuições de seus companheiros de navegação. A participação em chats ou listas de discussão, a possibilidade de apresentar suas idéias e disponibilizar suas produções na rede conferem uma outra motivação ao estudante, uma vez que ele sabe que outras pessoas vão ler o que ele escreveu, analisar e criticar seu trabalho, concordar ou não com sua opinião. Certamente, não é a mesma coisa que cumprir uma mera tarefa que será avaliada apenas pelo professor.

“A comunicação de suas aprendizagens, por parte do sujeito que aprende, apresenta-se assim como um componente básico do processo de cognição e não apenas como um produto subsidiário desse processo. A construção do conhecimento e sua comunicação não são, como costumamos imaginar, duas etapas sucessivas através das quais primeiro o sujeito se apropria dele e depois o enuncia. São, isso sim, o resultado de uma interação: alcança-se a organização e a clareza desse conhecimento ao convertê-lo em um produto comunicável e efetivamente comunicado. Mas para que o educando se sinta motivado e estimulado a empreender o esforço de intelecção que essa tarefa supõe, necessita destinatários, interlocutores reais: escrever sabendo que vai ser lido, preparar suas comunicações orais com a expectativa de que será ouvido.” (KAPLÚN, 1999, p.73-74)

Hoje muito mais importante do que preparar os jovens para que eles tenham uma postura crítica enquanto consumidores de informação é proporcionar as condições necessárias para que eles próprios sejam produtores de informação. A tecnologia está à nossa disposição e cabe a nós fazer uso da capacidade de expressão que ela oferece. A partir desta constatação, surge uma questão que torna-se crucial no campo da educação.

“Estamos descobrindo que o computador não se destina apenas à leitura e ao consumo, mas à comunicação e à participação, e todo um novo conjunto de responsabilidades nos desafia: o que queremos dizer e fazer, e que efeito terão nossas palavras e ações sobre a alucinação consensual?”(RUSHKOFF, 1999, p.206)

Temos agora não apenas meios que falam, mas também os meios para falar (KAPLÚN, 1999, p.74). O que os estudantes têm de valioso para dizer? Eles conhecem as propriedades da tecnologia? Com quem irão se comunicar? Que linguagens irão utilizar? Sobre o que versará a comunicação? É importante lembrar que durante muito tempo os alunos estavam acostumados a receber informações pré-digeridas e otimizadas. Assistir a uma aula expositiva exige um compromisso mínimo, ao passo que a interação na rede requer a defesa de argumentos e tomadas constantes de posição.
A escola tradicional adota um modelo de educação massificante, isto é, nivelado pela média. Os estudantes são tratados de maneira “entrópica”, já que muitas competências são desperdiçadas e as qualidades singulares de cada um não são levadas em conta. O conceito de inteligência coletiva proposto por Lévy apresenta-se como contrapartida ao caráter homogeneizante do sistema educativo convencional. Ninguém sabe tudo, mas todos sabem alguma coisa e a Internet é um ambiente propício para a sinergia dos diferentes saberes. Na rede, cada site publicado, cada opinião emitida contribui para enriquecer o patrimônio comum. Vejamos como PELLANDA (2000, p.140) discute o conceito de Lévy:

“Quando Newton e Leibniz descobriram quase ao mesmo tempo o cálculo infinitesimal ou diferencial, eles não tinham como saber o que o outro estava fazendo e não podiam trocar experiências. Isso certamente deu muito mais trabalho, e a ciência poderia sair ganhando se eles tivessem algum suporte para desenvolver os seus conhecimentos em conjunto. Esse suporte hoje é o ciberespaço, como nos mostra Pierre Lévy. A idéia do autor francês é que cada um de nós pode ser um nó na rede e com isso produzirmos conhecimento.”

Novas formas de colaboração estão surgindo a partir das interações via rede. Nesse contexto, as especificidades de cultura, gênero, raça, religião e nível social devem ser estimuladas e preservadas. A diversidade torna-se um valor primordial, uma vez que amplia as possibilidades de crescimento intelectual.

“As identidades tornam-se identidades de saber. As conseqüências éticas dessa nova instituição da subjetividade são imensas: quem é o outro? É alguém que sabe. E que sabe as coisas que eu não sei. O outro não é mais um ser assustador, ameaçador: como eu, ele ignora bastante e domina alguns conhecimentos. Mas como nossas zonas de inexperiência não se justapõem ele representa uma fonte possível de enriquecimento de meus próprios saberes. Ele pode aumentar meu potencial de ser, e tanto mais quanto mais diferir de mim.” (LÉVY, 1998a, p.27)

Quando se pensa nas vantagens que a Internet proporciona ao trabalho do professor, normalmente, a primeira a ser citada é seu potencial como fonte de pesquisa. A rede possibilita incursões a bibliotecas e museus virtuais, visitas a sites especializados sobre todos os tipos de assuntos e o acesso a publicações no mundo inteiro. No entanto, o ciberespaço não é apenas um meio para pesquisa e busca de material para utilização em sala de aula, mas, sobretudo, um local privilegiado para a discussão, a colaboração entre os pares e o intercâmbio de experiências e práticas pedagógicas. Atividades escolares, que até então ficavam confinadas às paredes das escolas, começam a ganhar visibilidade e dimensão pública. É nesse sentido que Nelson Pretto costuma afirmar que mais importante do que colocar a Internet nas escolas é colocar as escolas na Internet (PRETTO, 1999).
O desenvolvimento de práticas de aprendizagem colaborativa destaca-se, portanto, como uma das estratégias mais promissoras de utilização da Internet no campo educativo, implicando modificações substanciais na cultura escolar e nos papéis de aluno e professor. Conectados em rede, alunos e professores de todo o mundo podem trocar conhecimentos, realizar trabalhos coletivos, atuar em conjunto na busca de soluções para problemas comuns e explorar a singularidade cultural das diversas nações e grupos sociais, num rico processo de aprendizado mútuo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CARDOSO, Cláudio, LEMOS, André, PALACIOS, Marcos. Uma sala de aula no
ciberespaço: reflexões e sugestões a partir de uma experiência de ensino pela Internet.
Bahia Análise e Dados, Salvador, v.9, n.1, p.68-76, jul. 1999.
COLOMBO, Fausto. La comunicación sintética. In: BETTETINI, Gianfranco,
COLOMBO, Fausto. Las nuevas tecnologías de la comunicación. Barcelona: Paidós,
1995.
INCONTRI, Dora. Multimídia na educação. Comunicação & Educação, São Paulo, n.7,
p.16-20, set./dez. 1996.
KAPLÚN, Mário. Processos educativos e canais de comunicação. Comunicação &
Educação, São Paulo, n.14, p.68-75, jan./abr. 1999.
LANDOW, George. Hypertext. the covergence of contemporary critical theory and
technology. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1992.
LEMOS, André. Anjos interativos e retribalização do mundo. Sobre interatividade e
interface digitais. Tendências XXI, Lisboa, 1997. Também disponível em
http://www.facom.ufba.br/pesq/cyber/lemos/interac.html
LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999. 264p.
_____ . A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. São Paulo:
Loyola, 1998a. 212p.
_____ . O que é o virtual? São Paulo: Ed. 34, 1996. 160p.
_____ . Tecnologias intelectuais e modos de conhecer: nós somos o texto. 16 mai. 1998b. WWW: http://www.portoweb.com.br/PierreLevy/nossomos.html
MCCLINTOCK, Robert. Educating for the 21st century. Munich, 1997.
WWW: http://www.ilt.columbia.edu/mcclintock/akademie%203000/
MIRSHAWKA JUNIOR, Victor. Caos e criatividade. Programa Modernidade, São Paulo:
TV Senac, 03 ago. 1999.
NEGROPONTE, Nicholas. A vida digital. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
231p.
OROZCO GÓMEZ, Guillermo. Uma pedagogia para os meios de comunicação.
Comunicação & Educação, São Paulo, n. 12, p.77-88, maio/ago.,1998. Entrevista
concedida à Roseli Fígaro.
PALACIOS, Marcos. [POLEMICAEAD:287] Pedagogia para a EAD/Polemizando
08 jun. 2000 (EAD). LISTA DE DISCUSSÃO: Polemicaead polemicaead@ufba.br
PELLANDA, Eduardo Campos. Pensando em rede. In: PELLANDA, Nize Maria
Campos, PELLANDA, Eduardo Campos (org.). Ciberespaço: um hipertexto com
Pierre Lévy. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2000. p.140-146
PRETTO, Nelson de Luca. Cultura, verão e educação. A Tarde, Salvador, 03 jan. 2000.
Caderno 2.
_____ . O futuro da escola. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 28 nov. 1999.
Entrevista concedida à Ana Mascia Lagoa.
RUSHKOFF, Douglas. Um jogo chamado futuro: como a cultura dos garotos pode nos
ensinar a sobreviver na era do caos. Rio de Janeiro: Revan, 1999. 300p.
TAPSCOTT, Don. Geração digital: a crescente e irreversível ascensão da geração net.
São Paulo: MAKRON Books, 1999. 321p.
VITADINI, Nicoletta. Comunicar com los nuevos media. In: BETTETINI, Gianfranco,
COLOMBO, Fausto. Las nuevas tecnologías de la comunicación. Barcelona: Paidós,
1995.

[1] Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia. Atualmente, é professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia.
[2] Tradução minha. No original: “La interatividad (...) es una peculiaridad de algunos tipos de sistemas informáticos ‘que permiten acciones recíprocas de modo dialógico con otros usuarios o en tiempo real con aparatos’”.
[3] Sobre os conceitos de intratextualidade, intertextualidade e multivocalidade, ver LANDOW, George. Hypertext: the convergence of contemporary critical theory and technology. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1992.
[4] Tradução minha. No original: “For the past 500 years, the curriculum has consisted of compressed surveys of selected subjects scaled to fit within usable textbooks. The scale of the curriculum has not been a function of what is worthwhile in the culture, but rather what a limited set of books can encompass. Consequently, the politics of the curriculum involved a competition to exclude materials judged pernicious and to include those deemed essential. This competion is at the heart of the conflict between multiculturalists and defenders of the cannon. This competition is rapidly becoming meaningless and unnecessary”.
[5] http://www-itg.lbl.gov/vfrog/portuguese/dissect.html
[6] http://idlc.marshall.edu/history/ww1ferd/Default.htm
[7] Jogo produzido pela Maxis Inc. http://www.simcity.com/

UMA SALA DE AULA NO CIBERESPAÇO




UMA SALA DE AULA NO CIBERESPAÇO:
REFLEXÕES E SUGESTÕES A PARTIR DE UMA EXPERIÊNCIA
DE ENSINO PELA INTERNET

André Lemos, Cláudio Cardoso, Marcos Palacios[1]

"Keep repeating this mantra: This is only a tool, this is only a tool, this is only a tool. It is not the Holy Grail."
(Steve Snow- Communet List)

INTRODUÇÃO



O objetivo deste artigo é descrever o processo de montagem de um projeto de Educação à Distância, o Projeto Sala de Aula[2], do Grupo de Pesquisa em Comunicação e Cultura no Ciberespaço (Cyberpesquisa) da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, apresentando algumas reflexões decorrentes da experiência. Visamos assim esboçar alguns parâmetros sobre as tecnologias do virtual e sua interface com a educação indicando caminhos que possam servir de subsídio para aqueles envolvidos com esse tipo de experimentação pedagógica.
Apesar da já abundante literatura sobre Ensino à Distância pela Internet[3], a grande maioria dos relatos de experiências refere-se a projetos realizados fora do Brasil, disponíveis em língua inglesa e, em grande medida, concentrados sobre estudos de casos relacionados com a escola de nível médio norte-americana (K-12)[4]. No caso do Projeto Sala de Aula, trata-se de um experimento não curricular, de extensão universitária e portanto voltado para um público adulto[5].

TECNOLOGIAS DO VIRTUAL, HIPERTEXTOS E EDUCAÇÃO



As experiências educativas são, por definição, compostas por infinitas combinações de processos de virtualização e atualização, tomando esses termos de acordo com o exposto por Pierre Lévy[6]. Virtualizações e atualizações fazem parte da composição daquilo que chamamos de realidade, sendo assim uma falácia pensarmos o virtual como oposto ao real. Cabe explicar rapidamente esse conceito para aplicarmos ao processo pedagógico e a sua incorporação ao Projeto Sala de Aula.


Podemos ver o real como o conjunto de processos de virtualização e atualização sucessivos, sendo os primeiros dispositivos de questionamento de um determinado estado de coisas, e os segundos formas de resoluções desses problemas. Assim sendo, quando escrevemos este artigo, virtualizamos (pomos em questão) essa temática: educação e novas tecnologias, atualizando-a quando escolhemos uma abordagem e não outra, quando finalizamos escrevendo este texto. O processo é infindável, já que o leitor vai de novo virtualizar nosso texto ao lê-lo, ao questioná-lo com suas referências adquiridas e com uma criação de relações e vínculos próprios. Grosso modo podemos, para o que nos interessa aqui, dizer que todo processo de virtualização é um deslocamento do aqui e agora, próximo da atividade da “leitura”. Por outro lado, a atualização é uma resposta a essas questões, sendo similar ao processo de “escrita”. Assim, virtual se opõe ao atual, fazendo parte do real.


O processo educativo é, independente de novas ou velhas tecnologias, virtualizante por natureza. Não é básico de toda e qualquer experiência educacional a virtualização dos assuntos de uma determinada matéria? Não é objetivo de professores e alunos extrapolar os limites da certeza e ouvir outras vozes? Não devemos, enquanto professores, fazer com que nossos alunos problematizem questões e busquem de modo permanente ou temporário, atualizar essas questões em respostas que comprovem o alcance de uma determinada idéia sobre o assunto?


Para exemplificar, mostraremos rapidamente como conceitos hoje atribuídos às novas tecnologias podem ser aplicados ao processo educativo clássico, tradicionalmente exercido com livros, quadros negros e giz. Dizemos que as novas tecnologias são interativas, hipertextuais, ou seja, que elas utilizam simulações, interatividade, não linearidade (ou multi-linearidade), multivocalidade e tempo real. Todas essas caraterística são possíveis sem nenhuma mediação tecnológica e vivemos isso no nosso sistema educativo atual, com menor ou maior sucesso.




Vejamos. A interatividade é proporcionada pela relação entre alunos e professores, entre os diversos jogos possíveis em práticas pedagógicas e nos trabalhos em grupo. A simulação sempre foi usada em escolas, seja em laboratórios, seja em atividades práticas de outro gênero, onde busca-se construir e experimentar modelos que “funcionam como se fossem a coisa real”. A multi-linearidade, ou não linearidade pode ser exercitada pelos professores nas mais diversas tarefas que abordem um determinado assunto por caminhos não óbvios ou pré-estabelecidos. O tempo real é a própria classe em atividade, onde as coisas acontecem “live”, ao vivo, entre todos os participantes, alunos e professores.


Nesse sentido, o que as novas tecnologias podem fazer é, não exatamente instaurar uma novidade radical, mas forçar a utilização dessas novas dinâmicas. Hoje, em nossa salas de aula, os processos virtualizantes ficam dependentes da maior ou menor competência do professor. Com as tecnologias de comunicação e informação os professores e alunos ficam induzidos a utilizar o potencial hipertextual do meio. Caso contrário, porque usá-lo? Como utilizar a Internet na educação sem exercitar a não linearidade, a interatividade, a simulação e o tempo real? Daí sua importância. As novas tecnologias aplicadas à educação podem recolocar professores e alunos em papéis de agentes de virtualização.


Com isso o que pretendemos afirmar é que a educação é (deveria ser) virtualizante por essência, não sendo essa característica uma prerrogativa das novas tecnologias. Educar significa propor questões, problematizá-las e resolvê-las, mesmo que temporariamente. Esse processo pedagógico existe desde a maiêutica socrática, passando pela Academia de Platão e o Liceu de Aristóteles, chegando hoje as nossas Universidades. Ou, ao menos, assim deveria ter sido. A crise do sistema educacional não pode ser solucionada apenas pela inclusão de novas tecnologias da informação, mas por uma recondução do processo de ensino/aprendizagem (virtualização/atualização). Talvez a crise venha da ênfase dada às atualizações e não aos processos virtualizantes: hoje, a lógica do “passar de ano” e no vestibular obriga os alunos a saberem respostas prontas ao invés de questionarem e formularem novas questões. Com as novas tecnologias talvez possamos passar de uma educação atualizante para uma outra virtualizante. No entanto, erroneamente, as tecnologias vêm sendo adotadas como panacéia para a questão da comunicação e da educação, como uma simples intervenção instrumental. Insistimos, consequentemente, no erro de pensar que soluções técnicas possam resolver problemas que são eminentemente político-culturais.


Outro sentido pode ser dado ao virtual quando utilizado para fazer referência àquilo que é online ou fruto da telemática. É o sentido que entendemos quando falamos de espaço virtual, comunidade virtual, escola virtual, para ficar nessas três expressões. O virtual aqui é empregado com uma espécie de substituto das aspas que poderíamos utilizar em expressões para induzir suas compreensões a partir de outros significados. Dessa forma, a questão do virtual aplicada à informática, tem a vantagem de problematizar instâncias clássicas já constituídas. Quando falamos espaço, comunidade ou escola virtuais, estamos falando de “escola”, “comunidade”, “espaço”, todos entre aspas, que não podem ser compreendidos em seus sentidos clássicos[7]. De fato, uma escola, um espaço ou uma comunidades virtuais são “escolas”, “comunidades”, “espaços” reais mas que não são mais compreensíveis em seu sentido usual. Uma comunidade virtual é uma “comunidade” real, mas não como os sociólogos compreenderam as comunidades no século XIX. Quando falamos em espaço virtual, nos referimos a um “espaço” que é real mas que não corresponde ao espaço geométrico euclidiano. E por fim, quando falamos de escola virtual, estamos nos referindo efetivamente à “escolas”, mas àquelas que não correspondem mais às escolas tradicionais. Agora escola, comunidade, espaço, jornais, livros, etc., adquirem novos significados, impactando toda a cultura contemporânea, mesmo que ainda em um estágio minoritário e inicial.


O ciberespaço, enquanto hipertexto planetário, é de fato ainda um fenômeno minoritário mas, no entanto, hegemônico, como afirma Lévy. Assim o foi com a escrita que fundou a civilização ocidental e que surgiu como instrumento de exercício do poder de minorias (cleros, nobres). O mesmo acontece hoje com o ciberespaço. Ele institui um conjunto de textos vivos interligados, possibilitando uma comunicação todos-todos, de forma ativa (interativa) com informações digitais e com pessoas, estimulando processos de simulação, uma “não linearidade em tempo real.” Ele é hegemônico mesmo que ainda minoritário. Essa situação força que escolas, professores e alunos comecem a pensar em como tirar proveito dessa nova configuração socio-técnica. Assim, com olhar crítico e atencioso, o ciberespaço deve ser utilizado, por seu potencial virtualizante, no processo educacional. Devemos implantar ferramentas virtualizantes em espaços de virtualização, como são as escolas.


As ferramentas disponíveis no ciberespaço (e-mail, www, chats, muds, simulações) estimulam de certa maneira um comportamento hipertextual, seja da parte dos professores, seja da parte dos alunos. Esse comportamento corresponde à passagem da forma um-todos de transmissão de informações (emissor-massa/ professor-alunos) para um sistema pedagógico de tipo todos-todos (emissor é receptor e vice-versa; professor é orientador/problematizador e o aluno é mais autônomo). Vejamos então como essas ferramentas atuam no ambiente educacional, antes de relatarmos nossa própria experiência no Projeto Sala de Aula.


A utilização de web-sites nos permite explorar através de links (ou lexias) recursos diversos em localidades também diversas, em tempo real e de forma interativa (interatividade digital[8]). Com essa ferramenta, o processo educativo pode usar e abusar da multivocalidade, da escolha de percursos autônomos, da visualização de processos com simulações, de recursos audiovisuais. A Web permite assim a experimentação de obras abertas, fundamental para processos de virtualização e atualizações nos processos educativos. Já os chats permitem o intercâmbio em tempo real e sob a forma de diálogos entre alunos, e entre alunos e professores, instituindo debates abertos, conferências ou simples bate-papos. Formas de conferências podem ser utilizadas como entrevistas ou para estimular os debates e a participação. As lista de discussão são instrumentos que servem como um verdadeiro coletivo inteligente, onde os assuntos, agrupados de forma temática, são tratados por especialistas das mais diversas áreas, discutindo, comentando ou informando. Formam-se assim fóruns permanentes, proporcionando trocas mais profundas do que as obtidas nos chats, por exemplo. Cria-se uma comunidade informativa extremamente importante no processo pedagógico. O e-mail, forma mais utilizada da Internet, permite um contato individualizado, como as cartas epistolares, entre colegas e/ou com o professor, servindo como instrumento ágil para dirimir dúvidas pontuais ou efetuar consultas específicas. Vamos ver agora como esse ambiente hipertextual se caracteriza e como obter desse novo espaço eletrônico todo o seu potencial pedagógico.

CONTEXTUALIZANDO O AMBIENTE ELETRÔNICO HIPERTEXTUAL



Afim de compreendermos melhor o ambiente dos cursos à distância, torna-se necessária a discussão do conceito de hipertexto e sua aplicabilidade em experiências educacionais com tecnologias telemáticas. Conhecendo as possibilidades e limites desse ambiente hipertextual, que é a Internet, poderemos desenvolver cursos que utilizem todo seu potencial.


É interessante apontar que a idéia de criar "textos de textos" nasceu da dificuldade em lidar com muitas informações. Nesse sentido, o pioneiro e ancestral dos hipertextos, o “MEMEX” (“Memory Extender”), foi inventado por Vannevar Bush, conselheiro do presidente Roosevelt, no texto “As We May Think” de 1945[9], para resolver esse problema. O MEMEX, que nunca existiu na realidade, seria uma espécie de arquivo ou biblioteca pessoal, um dispositivo para estocar e procurar informações, baseado em microfilmes e em informações indexadas. A necessidade de indexar informações de forma descentralizada e rapidamente acessível está na base do surgimento dos hipertextos contemporâneos.


O nome hipertexto é atribuído a Ted Nelson em 1965, quando este lança o Projeto Xanadu[10]. O hipertexto é pensado por Nelson como um media literário onde, a partir de textos colados a textos, poderíamos abrir janela e janelas de janelas dando sobre mais e mais informações (textuais, sonoras e visuais). A idéia básica de Xanadu é criar uma biblioteca com toda a literatura mundial. Hoje o WWW é um hipertexto planetário, onde o “internauta” pode navegar de informação em informação, de site em site, em tempo real, através de interfaces gráficas que são os browsers. O ciberespaço é assim um imenso hipertexto planetário, um espaço rizomático[11] .


A forma do texto eletrônico como hiperficção ou hipertextos caracteriza-se pela criação de um espaço de informação (o site) onde o leitor/navegador escolhe seu percurso através dos links. O relação entre o escritor e o leitor como também entre o leitor e a leitura passam assim por questionamentos; assim como aquelas entre o aluno e o professor. O professor parece que cada vez mais deva dirigir seus esforços para atuar com orientador. Esse "nomadismo" de papéis (leitor-autor, professor-aluno, etc.) é tratado de diversas maneiras pelas teorias pós-estruturalistas. É nesse sentido que Landow[12] vai mostrar como os hipertextos podem atuar como laboratório para a experimentação dessas teorias (Barthes, Derrida, Foucault...).


No hipertexto digital on-line ou off-line, como o WWW ou o CD-Rom, respectivamente, podemos navegar sem que, aquele que os tenha concebido tenha o poder de determinar a centralidade do nosso percurso (guardando claro, os limites de opções dadas por ele ao programa utilizado). Dessa forma, deve-se valorizar leituras descentralizada, aproveitando as possibilidades abertas pelas indexações propostas através de links. A navegação interativa deve ser bem utilizada em curso online já que essa ação não mais é uma verdadeira leitura, no sentido clássico, mas um estado de “atenção-navegação-interação” ou “screening”, como propõe Rosello[13]. O percurso é agora multi-linear, indeterminado a priori, dependente da “ação” do “usuário-ator-navegador”, do “screener”. A interatividade digital é assim mais próxima das colagens e “cut-ups” dos dadaístas, que da narrativa romanesca clássica. No hipertexto planetário que é o ciberespaço, “everyone is an author, which means that no one is an author: the distinction upon which it rest, the author distinct from the reader disappears”[14].


CONCEITOS PARA APLICAÇÃO EM AMBIENTES HIPERTEXTUAIS



Pensar qualquer atividade pedagógica no ciberespaço demanda pela compreensão desse novo ambiente. Esse ambiente pode ser compreendido por alguns conceitos chaves que esboçamos aqui a partir dos trabalhos de G. Landow[15]. Os principais conceitos que nos permitem avaliar a funcionalidade de um site são: interatividade, navegabilidade, intra-textualidade, inter-textualidade, multivocalidade, sem falar logicamente da parte estética. Como estamos analisando aqui a experiência do "Sala de Aula", gostaríamos de expor como esses conceitos podem ajudar a criar um experiência online que utilize todo o potencial do meio. Procuramos seguir, para montar o curso, esses conceitos chaves.


Interatividade é, talvez, a palavra chave dos hipertextos. Embora tenha uma conotação ampla, interatividade pode ser definida como uma forma de diálogo entre o usuário e o ambiente informacional, permitida por um espaço de negociação chamado de interface. A Interatividade é a forma de ação em hipertextos, devendo ser valorizada a todo momento na montagem de experiências como o Projeto Sala de Aula. Entendemos Interatividade aqui, não somente como a possibilidade de "interação" entre alunos e professores, mas como a forma de caminhar pelas informações disponíveis. Devemos então potencializar formas interativas de busca de informação e de discussão de tarefas propostas, como foi o caso do "Introdução à Cibercultura", primeiro curso do Projeto.


Por navegabilidade compreendemos a maneira pela qual o usuário interage com as informações, referindo-se particularmente à forma de estruturação do site, seu design e sua arquitetura informacional. Uma boa navegabilidade deve permitir um percurso fácil, prático e fluido através das informações disponíveis. Nesse sentido, para construir uma experiência de cursos on-line temos que levar em conta uma economia de links e permitir que o aluno não se perca pelas informações indexadas. O site deve ser facilmente visualizado para que o aluno não se sinta desestimulado a prosseguir, seja pelo excesso de links e de percursos tortuosos, seja pela falta de possibilidade de intervenções abertas. A navegabilidade seria assim o "conforto" da nossa "Sala de Aula".


Um dos aspectos fundamentais dos hipertextos situa-se na vinculação de documentos de forma a ampliar o leque de informações e trazer instantaneamente uma complexificação do assunto abordado. Isso é vital para toda e qualquer atividade pedagógica. Essa possibilidade chamamos aqui de intra-textualidade e de inter-textualidade. Muito bem abordada por Landow, a intra-textualidade refere-se a lexias internas ao site, a informações ampliadas e anexadas situando-se dentro da própria estrutura dos sites. Nesse sentido utilizamos a intra-textualidade quando propúnhamos em algumas semanas consultar textos de leitura que se situavam no próprio site do Sala de Aula. Por sua vez a inter-textualidade pode ser compreendida como a indexação à informações externas ao site. Assim, ao explicarmos o que é um hipertexto e sua história podemos "linkar" essa informação ao site (externo) Xanadu, do pioneiro Ted Nelson, ou mesmo à sua página pessoal. Nesse sentido os links externos e internos permitem dar voz própria a uma nova informação (multivocalidade), colocando-a em pé de igualdade com a informação textual que a vinculou.


A utilização de links internos e externos é fundamental para a utilização de todo o potencial desse ambiente hipertextual. A intra-textualidade e a inter-textualidade são formas de ampliação do universo informacional, possibilitando, fora da hierarquia do "pé de página", uma multivocalidade. Essa multivocalidade (forma de vincular discursos diversos e contraditórios) deve ser explorada em experiências de educação online visto que ela é a forma de passar ao aluno versões complexas sobre um assunto, deixando ao mesmo a possibilidade de efetuar suas próprias sínteses. Nossa experiência, mesmo que sob o rótulo de um projeto piloto, procurou utilizar todos os recursos da hipermídia, a partir desses conceitos chaves.

O PROJETO SALA DE AULA.



O Projeto Sala de Aula foi criado pelo Grupo de Pesquisa em Comunicação e Cultura no Ciberespaço (Cyberpesquisa) da Faculdade de Comunicação (FACOM) da Universidade Federal da Bahia (UFBA) pelos professores André Lemos, Cláudio Cardoso e Marcos Palacios[16] como um espaço de experimentação para técnicas de ensino à distância utilizando a Internet como ambiente comunicacional.


O primeiro curso oferecido pelo Sala de Aula teve como tema “Introdução à Cibercultura” e foi conjuntamente elaborado pelos três professores envolvidos no projeto, no período de junho a setembro de 1997, tendo sido realizado entre outubro e dezembro desse mesmo ano. Disponível na rede como um Curso de Extensão oficialmente certificado pela UFBA, “Introdução à Cibercultura”[17] contou com 62 inscritos, sendo que desse total, 21 inscreveram-se formalmente e pagaram as taxas que dariam direito ao Certificado posteriormente expedido pela Pró-Reitoria de Extensão da Universidade. Os demais inscreveram-se como participantes livres, sem direito à certificação formal.

MONTANDO E DISPONIBILIZANDO



A idéia de disponibilizar um Curso de Extensão pela Internet surgiu das discussões no Grupo Cyberpesquisa. Os três docentes que se propuseram a montar o curso piloto tinham experiência prévia apenas em termos de utilização da Internet como ferramenta de apoio em cursos presenciais, tanto a nível de graduação quanto pós-graduação. O trabalho de montagem do curso iniciou-se com a escolha de uma temática específica, e a tomada de decisão sobre sua duração. Optamos pelo tema “Introdução à Cibercultura” por nos parecer suficientemente abrangente e apropriado para uma experiência piloto na Internet, oferecendo uma série de conceitos fundamentais aos alunos e participantes livres. Fixamos em oito semanas a duração total do curso e, após alguma discussão sobre as linhas mestras a serem seguidas e as temáticas de cada semana, dividimos os módulos (semanas) entre os três docentes, cabendo três a dois deles e duas ao terceiro.


A primeira discussão que enfrentamos foi sobre que recursos incorporar ao curso. Partimos da realidade do provedor Internet da FACOM/UFBA, onde o curso ficaria alojado. Inicialmente pensávamos em utilizar uma Lista de Discussão e um software de Chat (IRC) para interações em tempo real. Após algumas experiências com softwares de Chats[18], em especial o WebBoard (http://webBoard.ora.com) e o CommunitWare (http;//www.communityware.com)[19], decidimos que, em função dos tempos médios de acesso, que se mostraram bastante longos, a utilização dos Chats não seria prática e acabamos por optar pela utilização de apenas uma Lista de Discussão, implantada no próprio provedor central da UFBA. Foi criada a Lista de Discussão "sala01", de uso exclusivo dos participantes do Projeto Sala de Aula[20].
Durante os meses de julho e agosto de 1997 trabalhamos na construção dos módulos, usando como softwares de autoria o Frontpage e o Netscape Composer. Em reuniões semanais, apreciávamos o que cada um estava construindo, trocávamos idéias e sugestões. Optamos por não padronizar as páginas dos módulos, deixando a cargo de cada docente elaborar seus próprios sub-sites, por considerarmos que a padronização, neste caso, poderia ser sinônimo de monotonia, especialmente em se considerando que o curso teria uma duração relativamente longa. Além disso, tratando-se de um projeto piloto, a utilização de páginas diferenciadas forneceria uma oportunidade para comparações e avaliações posteriores de maior ou menor eficácia dos diferentes designs usados.


A Página de Abertura e o Programa de Curso foram construídos coletivamente. Discutimos e experimentamos com diversos desenhos e logomarcas[21]. Optamos por um design leve, que propiciasse rápido carregamento. Apenas a Barra de Navegação foi padronizada para todas as páginas do curso. Em setembro os diversos módulos (semanais) estavam prontos e o curso apresentava a seguinte estrutura:
· Primeira e segunda semanas: Sociedade Digital e Cibercultura (Prof. André Lemos);
· Terceira, quarta e quinta semanas: Ciberespaço e Comunidades Virtuais (Prof. Marcos Palácios);
· Sexta e sétima semanas: A Internet no Brasil e no Mundo (Prof. Cláudio Cardoso);
· Oitava semana: Censura e Privacidade no Ciberespaço (Prof. André Lemos).

UTILIZANDO A REDE



Umas das principais preocupações do grupo de professores que elaborou esta primeira experiência concentrou-se na tentativa de utilização da Internet da forma mais adequada quanto possível às suas capacidades, em vez de simplesmente reproduzir uma sala de aula convencional na rede. Este foi, inclusive, o motivo para a escolha do nome do programa de cursos online da FACOM. O nome do programa serve de alusão ao fato de que os exercícios de pesquisa, debates, consultas ao corpo discente e avaliações fossem orientados pela própria natureza do meio.
Deste modo, a elaboração dos oito módulos foi efetuada a partir da compreensão de que tratava-se de um curso online que deveria utilizar as vantagens, facilidades e limitações do próprio meio. Assim, a orientação para a busca de fontes de estudo propositadamente concentrou-se na Web, o debate sempre feito através da Lista de Discussão e as consultas aos professores e colegas, através do e-mail. A intenção foi sempre valorizar o aprendizado, concernente não apenas ao conteúdo dos módulos, mas também à própria Internet como ferramenta de pesquisa e estudo, ou seja, a intenção foi a de promover a imersão e a autonomia na busca das informações e nas elaborações das sínteses pelos alunos.


A propósito desta orientação, vale a pena ressaltar que a Internet ocupa um papel extremamente relevante como fonte de pesquisa para as universidades de todo o mundo e particularmente suprindo deficiências daquelas que não possuem uma boa estrutura de bibliotecas e outros acervos de pesquisa. Os cursos à distância oferecidos através da Internet em nosso país podem desempenhar o duplo papel de viabilizar ofertas que não seriam possíveis em localidades longínquas, seja pelas dificuldades de deslocamento de professores e alunos, seja pelas deficiências de instalações das universidades, seja pela drástica redução de custos.
Mas, além disso é preciso ressaltar uma função estratégica da Internet para o ensino brasileiro pelo fato dela hoje oferecer um imenso acervo bibliográfico, tornando-se praticamente um complemento indispensável às atuas condições das instituições de ensino nacionais. Os cursos online desempenham ao mesmo tempo uma importante função didática para o uso da Internet, habilitando os alunos a utilizá-la como importante aliada nos estudos e pesquisas.


O programa do curso Introdução à Cibercultura procurou valorizar a navegação por sites de referência nos diversos temas explorados nos módulos e incentivou o debate através da Lista de Discussão, que registrou a impressionante marca de 342 mensagens enviadas durante as oito semanas do curso, aqui contabilizadas as indagações dos alunos, considerações dos professores e a discussão entre todos. A cada módulo os alunos foram solicitados a realizarem tarefas específicas efetuando visitas a Web Sites através de links disponibilizados nas próprias páginas dos módulos. Após isto, era sempre solicitada alguma participação na Lista de Discussão, como cumprimento das respectivas tarefas, enviando para ela – e consequentemente para todos nela inscritos, colegas e professores - seus comentários críticos.


Esta orientação para o debate sobrecarregou um pouco os professores dos módulos que obrigatoriamente desempenhavam a função de moderadores da lista. Após três semanas de iniciado o curso, o grupo de professores percebeu a sobrecarga do responsável pelo módulo e os outros dois professores foram solicitados a participar de modo mais ativo na tarefa de pontuar e orientar as discussões, o que aliviou a sobrecarga sobre cada um dos responsáveis pelos módulos daí em diante.


A esta época já tínhamos contato com vários programas bem mais adequados à formação de debates via rede, sobretudo aqueles voltados para aplicações Web[22], mas, como foi dito acima, as instalações do servidor de comunicação da FACOM não ofereciam à época condições favoráveis para a implementação de um destes softwares, o que na ocasião acabaria consumindo esforços de adaptação e tempo (quase inexistentes!) para testes e validação. Optou-se pela solução mais simples e segura já disponível das Listas de Discussão, o que, na prática, teve um resultado bastante satisfatório. Durante as semanas do curso vários alunos solicitaram acesso às mensagens enviadas anteriormente e também a lista dos inscritos no curso. Os softwares especialistas criam automaticamente estas facilidades para os usuários, mas as Listas também oferecem estes serviços. Os professores dos módulos forneceram os comandos e orientaram os solicitantes a executarem eles próprios seus pedidos para a Lista de Discussão.

CO-CRIANDO UM MÉTODO PEDAGÓGICO



Talvez o aspecto mais relevante de toda a nossa experiência com o projeto deve-se ao fato de que, ao acreditarmos na capacidade do meio de estabelecer diálogos e proporcionar alternativas de “entrada” nos assuntos, acabamos por criar, em conjunto com os alunos, um método de ensino extremamente alinhado à própria orientação da nossa Faculdade.
No Brasil, o ensino do segundo grau tem privilegiado uma orientação na qual o estudante é permanentemente levado a acompanhar um programa de leituras e pesquisas, mediante um estímulo constante das escolas. Em maior ou menor grau este estímulo possui características coercitivas. Contudo, este não é o aspecto crucial da questão que gostaríamos de abordar aqui, e sim o fato de que o interesse pela busca de conhecimento nestas condições não parte do próprio aluno, mas de uma entidade externa a ele que lhe demanda o cumprimento de uma tarefa.
Não entraremos aqui na questão da validade ou do alcance deste procedimento bastante aplicado no ensino médio do nosso país, nem tampouco avaliaremos se este método é de fato o mais adequado ao grau de maturidade desta fase da vida dos estudantes. Por outro lado, entendemos o período de educação universitária como uma excelente – talvez única - oportunidade para o indivíduo passar de uma postura mais passiva em relação à busca do saber, para uma atitude de auto-educação permanente, onde a motivação para a busca de conhecimento e produção de saber reside no próprio indivíduo, questionador, criativo e capaz de optar por novas abordagens com autonomia. Buscamos assim atingir o máximo de processo de virtualização.


Alinhado a esta orientação universitária, nosso curso online acabou por estabelecer um ambiente extremamente propicio a esta abordagem, onde alunos e professores, em conjunto, debateram de forma ampla os assuntos dos diversos módulos, ficando reservado aos professores o papel de orientadores das discussões e dos programas de leitura e pesquisa.


Voltando nosso olhar para a experiência do primeiro curso oferecido pelo Projeto Sala de Aula, concluímos que os recursos foram utilizados para potencializar uma orientação que proporciona ao aluno que ele “faça seu próprio caminho” em busca do conhecimento, garantindo o papel do professor como responsável pela orientação voltada a esclarecer e otimizar o percurso dos estudantes, e assegurando o espaço necessário para que o aluno encontre seu estilo de aprendizagem e se sinta responsável pelo próprio destino. O método pedagógico do projeto resultou do encontro de alunos e professores neste ambiente co-criado.

O PROJETO SALA DE AULA HOJE E SUAS PERSPECTIVAS



Após a consolidação do sucesso da primeira iniciativa, o Grupo Cyberpesquisa decidiu concentrar seus esforços na elaboração de um segundo curso, maior e mais consistente, reunindo numa mesma oferta de extensão universitária, as diversas especialidades dos pesquisadores do grupo.
Assim, foi elaborado um Web Site bem mais estruturado, obedecendo a critérios de navegação e design padronizados, e contando com o apoio do Laboratório de Multimídia da FACOM (LabMedia)[23] que, na ocasião, já dispunha de pessoal plenamente habilitado à construção de Web Pages e Sites contendo pequenas aplicações Web. Deste modo, o Web Site do Sala de Aula, passou não apenas a oferecer cursos de extensão, mas também a controlar o acesso dos alunos através de senhas, aceitar matrículas através do preenchimento de formulários Web, comandar mensagens para Listas de Discussão, também através de formulários Web, e proporcionar a inscrição e participação em Chats.


Ao final do processo de construção do novo programa - que mantém disponível um link para a primeira versão oferecida em outubro de 1997 -, tínhamos um verdadeiro Web Site do Projeto Sala de Aula, estruturado, padronizado e estruturado para crescer, aberto que está para incorporar novos módulos futuros.


O visitante do Web Site encontrará a seguinte estrutura à sua disposição: uma “Secretaria”, onde estão disponíveis os programas e calendários dos cursos oferecidos, assim como as datas e valores das inscrições; uma “Biblioteca”, que disponibiliza em três diferentes seções - Referências, Bookmark e Glossário -, texto, artigos, livros e outras informações online para cada curso ou módulo oferecido; uma “Cantina”, lugar de socialização onde os inscritos podem trocar idéias com outros participantes dos cursos e circular notícias de interesse para toda a comunidade do Sala de Aula; e, por fim, as próprias “Salas”, onde estão disponíveis os conteúdos dos cursos propriamente ditos, onde acontecem as aulas, e onde participantes têm acesso apenas mediante apresentação da senha fornecida pela Secretaria.


Atualmente o Sala de Aula continua oferecendo cursos a nível de Extensão, já estando em oferta ou programados para este ano: Jornalismo On-line, Hipertexto e Ficção Literária, Marketing e Publicidade On-line, Novas Tecnologias e Educação, Arte Eletrônica, Cultura Cyberpunk e Web Design, envolvendo diversos docentes e pesquisadores ligados ao Grupo Cyberpesquisa. Acreditamos que tais cursos, de curta duração e envolvendo uma vasta gama de áreas de conhecimento, continuam funcionando como peças laboratoriais importantes para o teste de teorias e práticas pedagógicas no novo ambiente educacional. A tendência do projeto, no entanto, é claramente no sentido do alargamento de seus objetivos e de sua área de atuação.


No primeiro semestre de 1999, a Universidade Federal da Bahia estabeleceu um Grupo de Trabalho para a elaboração de uma política de Educação à Distância e Uso de Recursos da Informática no Ensino. O Projeto Sala de Aula, em virtude de seu caráter pioneiro e da experiência acumulada por seus participantes nos últimos dois anos, vem sendo apontado como um dos parâmetros para o balizamento da política a ser traçada e como modelo para experimentos futuros da Universidade nessa área.


O objetivo dos pesquisadores do Grupo Cyberpesquisa é ampliar o alcance e a função social do Projeto Sala de Aula, abrindo-o para usuários potenciais, de dentro e de fora da Universidade, que se interessem pelo oferecimento de cursos em diferentes área de conhecimento, a partir da plataforma de trabalho já instalada, num sistema de parceria com a FACOM. O primeiro passo nessa direção foi dado através da elaboração de um projeto, já em estágio de análise por agências de fomento, envolvendo inicialmente a FACOM, o Centro de Processamento de Dados da Universidade Federal da Bahia (CPD/UFBA) e a rede baiana para o Desenvolvimento de Tecnologia (RBDT), uma instituição de âmbito estadual, responsável pelo estabelecimento e gerenciamento de uma extensa rede telemática, com finalidades sociais, disseminada por todo o território baiano. Através do estabelecimento de parcerias desse tipo, o Projeto Sala de Aula receberá os aportes técnicos e financeiros necessários para mover-se para um novo patamar, ampliando substancialmente sua abrangência e seu alcance social, bem como capacitando-se para um pleno uso do potencial tecnológico em breve disponível através das redes de alta velocidade (Internet 2), já em processo de implantação em Salvador, através da REMA (Rede Metropolitana de Alta Velocidade)[24].


Estabelecidos os elos de cooperação que estamos buscando, o Projeto Sala de Aula deixará de ser um programa experimental da FACOM, para tornar-se um Projeto de Educação à Distância de toda a sociedade baiana.





















[1] André Lemos (alemos@ufba.br)é doutor em sociologia pela Sorbonne, Professor Adjunto e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Facom/UFBa; Cláudio Cardoso (ccardoso@svn.com.br) é Professor Assistente, coordenador do NICOM/Facom e doutorando da Facom/UFBa; Marcos Palacios (palacios@ufba.br) é doutor em sociologia pela Universidade de Liverpool, Professor Adjunto e Diretor da Facom/UFBa.




[3] Um eficiente ponto de partida para uma visão geral de vários aspectos da Educação via Internet no Brasil e no mundo é a Biblioteca Virtual de Educação à Distância do CNPq (http://www.prossiga.br/rei.html). Outro site interessante para início de pesquisa é o canadense Tele-Education localizado em http://teleeducation.nb.ca/english.shtml. Uma boa coleção de artigos e recursos com referência à construção de Sites Educacionais está na página Web Based Instruction Resources mantida por John H. Curry, da Utah State University (http://english.usu.edu/jcurry/wbi.html). Igualmente importante é o Electronic Learning in a Digital World, do The Global Institute for Interactive Multimedia (http://www.edgorg.com/index.htm), que oferece uma série de links para sites da área, incluindo bibliografia especializada.


[4] Veja por exemplo VALAUSKAS, Edward & ERTEL, Monica, The Internet for Teachers and School Library Media Specialists, New York, Neal-Schuman Publishers, 1996.


[5] Os inscritos no curso, apesar de não terem sido fixados pré-requisitos formais de qualquer natureza, eram todos pessoas de nível superior ou alunos de graduação da UFBA e de outras universidade.


[6] Ver Lévy, Pierre, O que é o Virtual., R. J., Ed. 34, 1997.


[7] Para uma discussão dos limites das definições clássicas de Comunidade, ante a emergência de novas formas de sociabilidade no Ciberespaço, ver PALACIOS, Marcos. Cotidiano e Sociabilidade no Ciberespaço: apontamentos para uma discussão, in: NETO, Antonio Fausto e PINTO, Milton José. O Indivíduo e as Mídias, R.J., Ed. Diadorim, 1996.


[8] Ver Lemos, A , Anjos Interativos e Retribalização do Mundo. Sobre Interatividade e Interface Digitais., in Tedências XXI, Lisboa, 1997.


[9] Bush, V., “As We May Think”, in Atlantic, August, 1945. O artigo é hoje considerado um clássico da literatura sobre o Hipertexto e pode ser acessado em http://www.facom.ufba.br/think.


[10] Sob a história dos hipertextos ver Lauffer, R.; Scavetta, D., Texte, hypertexte, hypermedia. 2nd ed. Paris: Presses universitaires de France, 1995. O Projeto Xanadu, em sua forma atual está em http://www.xanadu.net/


[11] Deleuze, G., Guattari, F., “Mille Plateaux. Capitalisme et Schizophrénie”. Paris, Les Editions de Minuit, 1980.


[12]Landow, G. P., Hypertext. The Convergence of Contemporary Critical Theory and
Technology., The John Hopkins University Press, Baltimore and London, 1992.


[13] Rosello propõe que devamos substituir a palavra leitor por “screener” e seu ato de navegação de “screening”. Rosello, Mireille., Michel de Certeau’s “Wandersmänner and Paul Auster’s Hypertextual Detective., in Landow, George P., Hyper/Text/Theory., The John Hopkins University Press, Baltimore & London, 1994.


[14] Wooley, B., Virtual Worlds. A Journey in Hype and Hyperreality., Penguin Books, 1992., p. 165.


[15] Landow, G., op.cit.


[16] Cyberpesquisa (http://www.facom.ufba.br/pesq/cyber). O Projeto Sala de Aula é parte das atividades do Grupo de Pesquisa.


[17] O curso continua disponível no site da FACOM em http://www.facom.ufba.br/saladeaula


[18] Nesse período esteve na FACOM, como professor Visitante o Dr. Steven Williams, da University of California, Los Angeles (UCLA), que foi um grande incentivador do projeto.


[19] Durante o período de realização curso, entrou em operação a versão brasileira do CommunityWare, que está disponível em http://wwww.communityware.com.br/.


[20] Nesse ponto foi inestimável a colaboração de João Gualberto Rizzo (jgra@ufba.br) e Claudete Alves (claudete@ufba.br), do Centro de Processamento de Dados (CPD-UFBA) pelo interesse e agilidade que demonstraram durante a implantação do projeto e o funcionamento do curso.


[21] Contamos com a colaboração do artista plástico e professor da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) Otávio Nascimento Filho (otafilho@maxnet.com.br).


[22] A propósito de aplicações de debates através da Web, sugerimos uma visita ao Site da Universidade de Ulster na Irlanda do Norte, trazido ao nosso conhecimento pelo Prof. Dr. Dan Fleming que efetuou um leitorado de dois meses entre Novembro de 1997 e Janeiro de 1998 na FACOM a convite do Grupo Cyberpesquisa, em http://formations.ulst.ac.uk/. Outro Site dedicado ao ensino a distância e coordenado pelo Dr. Steven Williams da UCLA, onde a FACOM ocupa uma das áreas para debates encontra-se em http://www.glo.org/facom/.


[23] O LabMedia da FACOM (www.facom.ufba.br/labmedia) é constituído por estudantes bolsistas, que recebem treinamento especializado e se dedicam aos vários projetos executados pelo Laboratório. A coordenação geral do LabMedia está a cargo do Prof. José Mamede (mamede@ufba.br).



[24] Para informações sobre a REMA e a Internet 2 em geral ver http://www.ufba.br/rema

terça-feira, 25 de março de 2008

Seja bem-vindo!

Um tipo especial de competência está sendo exigido no cotidiano das relações sociais para a inserção e sobrevivência no mercado de trabalho em um mundo globalizado. O tratamento de um volume crescente de informações e a necessidade do trabalho em equipe faz com que nossa capacidade mais valiosa esteja ligada à habilidade de receber, criticar, manipular e utilizar informações de forma compartilhada, participando da montagem de uma inteligência coletiva.

Neste contexto, a oportunidade de cursos à distância proporcionarem oportunidades de aprimoramento e capacitação é inegável, uma vez que podem apoiar o desenvolvimento do ser humano em sua totalidade, no que se refere à autonomia, senso crítico e sociabilidade, visando a construção de uma inteligência coletiva. O "novo paradigma" educacional rompe com formas tradicionais do ensino a distância, que empurram conteúdos pré-definidos para a simples assimilação individual, pois está centrado na prática de tarefas cooperativas, que favorecem discussões, assim como a reflexão individual sobre conteúdos.

O aprendizado "puxado por atividades", em vez de "empurrando conteúdos", sugere uma aproximação entre os enfoques sócio-interacionista e ergonômico para o desenvolvimento de tecnologia que sejam efetivamente úteis e fáceis de usar.

Links sugeridos:


http://www.dominiopublico.gov.br

http://www.mec.gov.br